SALA DE AULA: UM CAMPO DE BATALHA OU UM ESPAÇO DE TRANSFORMAÇÃO?

 Por Siliane Nunes

Ser professor é muito mais do que transmitir conhecimento. É lidar com a complexidade das relações humanas, com as expectativas da sociedade e com os desafios de um sistema educacional em constante transformação. Neste texto, explorarei as diversas facetas dessa profissão, revelando os desafios e as contradições que permeiam o dia a dia de um educador.

Ao longo dessa caminhada, passei por escolas particulares e públicas, já fui voluntária, mas também fui mal paga, mas o pior, sem dúvida é ser ofendida/humilhada. Atualmente estou apenas na rede pública, mas confesso que as situações que envolvem relacionamentos interpessoais não diferem muito entre os espaços, apenas em questão de segurança trabalhista em detrimento da estabilidade conquistada através de concurso público. Ao contrário da particular, que a cada final de ano letivo há um risco de ficar desempregado. Os motivos vão desde o seu rendimento como profissional, a reivindicações de alunos ou pais.

Uma coisa que me incomoda muito na educação é a pessoalização com que as relações ocorrem. Na verdade não é nem o estreitamento de relações em si, mas a não distinção entre relações pessoais de profissionais. É claro que o ambiente escolar é propício a formação de amizades e carinho entre os profissionais que ali convivem. A própria gestão democrática encoraja essas relações. A controversa aqui é quando não há separação entre as relações e as obrigações resultando em cobranças indevidas e/ou até mesmo a busca por autobenefício nocivo às relações de trabalho. Essa é até mais complicada. Aquele aluno que se escora no outro, mas reclama se não receber a pontuação final. Na coordenação pedagógica, pude perceber que não dá pra medir o outro sob sua régua. É fato! As pessoas não sabem separar e tentam se beneficiar. O que mancha a imagem da educação. Ao não cumprir com suas obrigações, o profissional quebra uma linearidade programada e prejudica o resultado. Não adianta mudar o sistema de ensino, os materiais utilizados, a forma de avaliação, o modelo educacional, se o principal agente da mudança, o professor, se recusar a fazê-lo. Muito se fala sobre não adiantar o professor tentar ensinar se o aluno não quiser aprender. Não questiono o poder dessa fala e a reproduzo sempre, mas é bem verdade também que um professor não comprometido prejudica bem mais a educação que um aluno rebelde.

A gestão democrática, de acordo com a LDB (Lei n. 9.394/96), é aquela que o protagonismo é múltiplo, ou seja, a comunidade escolar(professores, alunos, pais, direção, equipe pedagógica e demais funcionários) é considerada sujeito ativo em todo o processo da gestão, participando de todas as decisões da escola. Assim, é imprescindível que cada um destes sujeitos tenham clareza e conhecimento de seu papel enquanto participante da comunidade escolar, cujo objetivo é sucesso no processo ensino-aprendizagem.

O professor, nesse cenário, deve buscar ferramentas e metodologias ativas para que o resultado seja alcançado. A gestão ( coordenação e direção) deve oferecer a infraestrutura e condições ambientais/comportamentais para que o professor consiga realizar seu trabalho da melhor maneira possível. O aluno é um agente central desse processo, o foco deve estar nele, isso envolve questões amplas e complexas que vão além da sala de aula.

À medida que vamos adquirindo experiências em sala de aula, passando por diversas turmas em ambientes muitas vezes insalubres, conseguimos desenvolver um método que possa ser adaptado a cada realidade e o desgaste de preparar duas, três aulas diferentes para a mesma série se torna dispensável. Isso não significa que os problemas e fracassos do processo desaparecerão ou que a mesma aula funcione em várias turmas. Significa dizer que o mesmo planejamento pode ser adaptado aos diferentes níveis de aprendizagens, a partir de objetivos claros, flexibilizando para adaptações mais leves ou avançadas.

Sempre fico com a impressão de que os colegas que vomitam perfeição, podem ser divididos em dois grupos: os que não se reciclam e os que não se importam.

O primeiro grupo é aquele que já memorizou o que precisa falar e fazer em cada aula. É sempre aquela mesma aula, onde o conteúdo até muda, precisa mudar, mas o método é o mais tradicional possível. O segundo grupo, só não se importa mesmo. Segue a maré e pronto.Não há continuidade ou devolutivas. Copia e cola os planejamos de acordo com o material adotado. Registra um planejamento invejável, mas sabemos que é sempre aula expositiva durante o ano letivo inteiro. Não vou entrar no mérito da aprendizagem, não aqui.

Há ainda o grupo dos que não se encaixam, são inquietos e até incomodados com as amarras do sistema. Isso me lembra de um conselho de classe final em que identifiquei alunos que não sabiam ler no sexto ano e fui questionada sobre o que tinha feito enquanto professora sobre isso. Respondi que por várias vezes saía pela escola em busca desses alunos para que não perdessem a aula e retruquei ainda, o que ela (coordenadora) tinha feito quanto a isso? Acho que nem preciso dizer que a partir daí virei "inimiga e declaradamente oposição", tanto que dois anos após esse momento, estava me candidatando ao cargo de gestora nessa escola.

Fiquei me perguntando como esses alunos tinham notas boas em várias disciplinas? Mas esse é o tipo de questionamento que eu já sabia a resposta: os professores não aguentam mais brigar contra o sistema. Fingem que ensinam, os alunos fingem que aprendem, ao final do ano todo mundo é aprovado e esperamos um novo ano letivo.

Mas até quando vamos culpar o sistema? Boicotar o sistema dessa maneira resolve? Porque então não cobramos mais eficiência e participação das secretarias diariamente ou semanalmente nas escolas?. Não apenas para apontar as falhas, Nem tampouco apenas para selfs e receber feedbacks positivos. Não estariam ali para serem bajulados, mas sim para arregaçar as mangas e resolver as questões acima do professor e gestão escolar. Uma vez questionei que eram tantas reuniões que a gente não tinha tempo de fazer o que era proposto em reunião.

Vale lembrar aqui que Paulo Freire nada tem a ver com isso, pois o “coitado” só é citado no início do ano, nas famigeradas semanas pedagógicas, que mais parecem um espetáculo fantasioso de Hollywood e ao iniciarem as aulas, as cortinas se fecham para outra realidade, e assim que pisamos em sala de aula somem as compreensões, a preocupação com o estudante, os suportes prometidos, os recursos, a paciência ...

A teoria é freiriana. A prática é militar.

“Me movo como educador porque, primeiro, me movo como gente.. Como professor preciso me mover com clareza na minha prática. Preciso conhecer as diferentes dimensões que caracterizam a essência da prática, o que me pode tornar mais seguro no meu próprio desempenho”. Paulo Freire.

Não adianta ser professor assíduo, compreensivo, participativo, aquele que topa tudo pelo bem maior da equipe, esperando que no momento que precisar vai receber apoio. Não vai, NÃO! Você tem que fazer isso porque isso compete ao cargo que assumiu.

É muito comum ouvir nas salas de professores a expressão “Interessante como as pessoas mudam quando assumem uma gestão ou coordenação” , mas será que estamos fazendo nosso papel ou estamos nos aproveitando das relações interpessoais para sermos desleixados com as nossas obrigações?

O que estou questionando aqui, não é o que está previsto em lei. Faltou sem atestado? Deve ser descontado! Isso é claro e está dentro da lei, mas vamos ser sinceros aqui, o peso é diferente para cada medida. Não estou generalizando, existem gestões que abusam do poder, mas na maioria das escolas que trabalhei observei/presenciei o favoritismo de um lado e a condenação do outro (é a pessoalização que venho citando). É preciso que a gestão saiba separar e cobrar de todos de forma unilateral, só assim para que o sentimento de injustiça que assombra alguns colegas possa desaparecer.

Sobre essa contradição do professor quando se torna gestor/coordenador, Paulo Freire diz que: “ a violência dos opressores, que os faz também desumanizados, não instaura uma outra vocação- a do ser menos. Como a distorção do ser mais, o ser menos leva os oprimidos, cedo ou tarde, a lutar contra quem os fez menos. E essa luta somente tem sentido quando os oprimidos , ao buscarem recuperar sua humanidade, que é uma forma de criá-la, não se sentem idealisticamente opressores, mas restauradores da humanidade em ambos. Estes, que oprimem, exploram e violentam, em razão de seu poder, a força de libertação dos oprimidos nem de si mesmos.” (pedagogia do oprimido, pag. 41)

É muito difícil se reconhecer como opressor, ainda mais ocupando um cargo de gestão, embora seja preciso se reconhecer como opressor, ou até mesmo oprimido para adquirir a ciência de não reproduzir esse cenário. O que não isenta ninguém de suas obrigações e vale a reflexão do que seria oprimir? cobrar professor em sala de aula? práticas diversas? preenchimento de diários? Participação das formações, plantões pedagógicos? Peraí, Não! Isso não é ser opressor! A autocrítica é necessária e benéfica para a educação. somos agentes dela. Não podemos esquecer do nosso comprometimento ao assumir nossa função enquanto professor.

Lembrando que a luta é coletiva, sempre!

VOCÊ NÃO É INSUBSTITUÍVEL

Passei no concurso em 2014 e que alegria, lembro que dava aula na particular e estava muito empolgada, explicava como aquela seria minha última aula. A aula da despedida. Ao passar pelos exames médicos para ser empossada, estava rouca no dia da vídeo laringoscopia e não deu outra, apareceram micro nódulos na garganta. A junta médica me considerou inapta para assumir o cargo. Vivi um pesadelo desesperador.

Minha chance de conquistar a sonhada estabilidade estava escapando de mim. Recorri da decisão da junta com mandado de segurança solicitado pelo advogado e ganhei 20 dias para realizar e apresentar novos exames. Passei por uma fono que indicou alguns exercícios e repouso para a voz. Como? Trabalhava em escola particular. A fono me deu 10 dias de atestado e o que eu fiz? Fui trabalhar. Não queria deixar meus alunos sem aula. Estava nessa escola há quase três anos e nunca tinha faltado ou atrasado, ao contrário, cobria as faltas dos colegas quando precisavam. Tinha banco de horas, já que não existia hora extra.

Por causa da minha situação em que eu não podia falar muito, achei alguns vídeos de documentários dentro dos assuntos que estávamos discutindo em sala, elaborei questões para que fossem respondidas à medida que fossem assistindo. Tudo certo? NÃO! Fui surpreendida pela diretora que me repreendeu na frente da turma e falou que aquilo ali não era aula. Que a programação da escola era revisão para uma prova que iria acontecer. Claro que eu tentei justificar a minha situação, falei do atestado que eu não deveria estar trabalhando e sim em casa repousando a voz, mas como sempre o lado mais fraco arrebenta. Eu simples funcionária errei ao ir trabalhar mesmo sem condições. Ao mesmo tempo em que eu estava desesperada com medo de não dar certo eu estava aliviada porque se desse certo eu iria pedir demissão e assumir o concurso. Já pedi demissão algumas vezes ao longo dessa minha carreira que nem é tão longa mas também não é tão recente. Não é fácil você ser esclarecido, vocês têm um professor formado consciência crítica de classe e ser submetido a situações ou rendas como essa de levar uma chamada na frente dos seus alunos por estar dando seu melhor que foi tido como o pior naquele momento.

O que venho tentando falar, é que o professor é muito cobrado: É cobrado a ser psicólogo, professor orientador, pai, mãe, delegado, médico, enfermeiro, advogado, mas a remuneração é uma só. Chico Anísio, ao interpretar o professor raimundo já protestava: “ e o salário, óh!?”

Mas quando o professor precisa de qualquer coisa, ele encontra críticas e julgamento.

Situações assim ocorrem também na escola pública. A exemplo da necessidade de faltar, não necessariamente por razões médicas. É nesse momento que percebemos a importância do professor em sala. Quando o professor falta, o caos é instaurado na escola.

A depender da gestão, não adianta ser professor assíduo, compreensivo, participativo, aquele que topa tudo pelo bem maior da equipe, esperando receber apoio quando precisar. Não vai, NÃO!

Também não adianta dizer a verdade quando precisar se ausentar da sala por um dia, logo questionam o motivo de você deixar seus alunos sem aula. Seja a terapia do filho ou a castração do seu gato. Não é motivo, afinal você pode marcar qualquer dia para esses "compromissos”, não é mesmo? Essa preocupação sobre o aluno ficar sem aula é realmente autêntica? E quando liberam as aulas porque precisam de uma reunião, ou por falta d’água, queda de energia, falta de merenda…

Aqui volto com a importância de uma gestão imparcial, aquela sem pessoalização ou preferências. É preciso seguir as portarias e estatutos orientadores da dinâmica escolar. Para que servem senão para garantir que os direitos sejam preservados e os deveres cumpridos?

Eu defendo um ponto, em se tratando de escola pública, claro. Assim como muitas pessoas falam que todo professor deve passar por uma gestão em algum momento da sua carreira. Todo gestor deveria voltar para sala de aula vez ou outra e isso vale para coordenador também para se colocar novamente no lugar de professor para desenvolver talvez a empatia que nos cobram tanto mas que não nos dão. A gestão democrática com a definição exata de hierarquia a partir das divergências entre teoria e prática e a sinalização concreta do real ambiente vivido em cada cadeia dessa hierarquia, transforma a escola num ambiente de trocas e não apenas de cobrança ou favoritismo. É difícil externar os anseios e dores da educação sem apontar nossas falhas como profissionais. Até onde somos responsáveis pelo fracasso da educação?

PROFESSORES E PROFESSAUROS

Celso Antunes escreveu um livro com esse título e o termo me chamou muita atenção. Comprei com olhar de soberba, já me intitulando professora, Claro! Ao ler, fui obrigada a fazer uma autocrítica que postei no intagram e resolvi encaixar aqui nesse artigo.

Todo professor tem um pouco de PROFESSAURO também.

Por mais inovador, dinâmico, alto astral, parceiro que seja dos seus alunos, o sistema obriga a manter a DISCIPLINA em sala. Embora a disciplina não significa automaticamente que a aprendizagem esteja acontecendo. Há uma ordem na desordem das dinâmicas aplicadas, por exemplo. O que quero dizer é que nem sempre, uma sala barulhenta é sinônimo de falta de pulso, ou planejamento do professor.

O PROFESSAURO reproduz o que o sistema recheado de burocracias exige. Ele aparece nas nossas falas de "façam silêncio que isso cai na prova", porque a prova é condicionada a que o aluno tenha informações padronizadas para repetir.

Por isso, num rascunho de artigo que escrevi (esse mesmo que você esta lendo), critico as benditas falas freireanas de semana pedagógica, que nos enche de esperança de um ano letivo inovador, mas que na verdade é amarrado a um calendário cheio de datas marcadas e prazos intermináveis que nos consomem, findando toda nossa vontade de dar aquela aula espetacular. E ficamos nas aulas expositivas, simulados, seminários, provas e blá blá blá.

Contudo, posso afirmar que

Também sou PROFESSAURA!

Lamento Sili, Você falhou!

PREPARE A AULA QUE GOSTARIA DE TER

Certa vez, em mais um início de ano letivo, uma professora pediu dicas de como preparar as aulas para prender a atenção dos alunos. Na hora, me veio essa frase. Não adianta copiar modelos. Não aprendemos a ministrar aula, nem é possível ensinar a fórmula da aula perfeita. Cada professor, ao longo da carreira, vai desenvolvendo métodos, a partir das metodologias e didáticas existentes. A teoria é importante, mas a prática só é desenvolvida com o dia a dia, acertos e erros. O professor que copia modelos prontos, falha miseravelmente. Primeiro porque somos um universo e cada sala de aula é outro universo. Basta observar que a mesma aula é dada diferente em cada sala. O começo da experiência em sala de aula é desesperador, nos frustramos ao perceber que não é possível seguir uma padronização. Com o passar do tempo, aliando formações e prática de sala de aula, vamos nos adaptando e automaticamente as variadas formas metodológicas de ministrar aquele conteúdo acontece de forma espontânea. O professor aprende a empregar modelos diferentes sem que haja a necessidade de elaborar diversos planejamentos, onde o mesmo planejamento pode ser adaptado a cada perfil de turma.

Não importa que professor você seja: O professor autoritário, o professor ldesleixado, o professor competente, sério, o professor incompetente, irresponsável, o professor amoroso da vida e das gentes, o professor mal amado, sempre com raiva do mundo e das pessoas, frio, burocrático, racionalista, sempre vai ficar uma marca, positiva ou negativa, naquele aluno. Mas, mais importante que isso é que experiência você quer construir ao longo da sua carreira profissional. Partindo do ponto que uma aula monótona, automática e sem objetivo claro se torna maçante também para nós. Daí a importância do exemplo no cumprimento dos seus deveres. O professor tem o dever de dar suas aulas, de realizar sua tarefa docente com excelência. Para isso, precisa de condições favoráveis, higiênicas, espaciais, estéticas e ambientais. O desrespeito a este espaço é uma ofensa aos educandos, aos educadores e à prática pedagógica. (pedagogia da autonomia, pág. 64-65).

Descubra a sua persona, que tipo de aula mais funciona com você. Utilize diversas ferramentas adaptadas ao seu modelo de ensino. Imprima sua marca e tudo vai dar certo. No entanto, tenha calma e respeite o seu processo de autoconhecimento profissional. Não vai ser no primeiro ano como professor, que você vai se encontrar em sala. Também, não estagne, Isso não é permitido na educação. Leia, participe de formações, troque experiência, experimente diversos modelos, observe os colegas, saia da sua bolha/área de formação e se desafie continuamente. A cada década, os moldes precisam ser renovados. A obsolescência não se resume apenas às tecnologias, mas também às formas comportamentais e de prioridades.

Os alunos - como todos nós - comportam-se de maneira muito diferente dependendo do seu modo de funcionamento: modo de aprendizagem ou modo de atuação. A motivação dada gera uma expectativa, mas cada aluno a recebe de uma forma específica. Se não fizer sentido para ele, não vai funcionar. É normal nos frustrarmos com aquela aula maravilhosa que roteirizamos pensando na empolgação da turma, mas na hora poucos compram a proposta enquanto a maioria não responde como esperamos. Nessas horas, bate o desânimo mesmo, exercemos nossa autoridade, e se aprofundarmos veremos que o problema é que a escola não acompanhou o modelo de consumo da sociedade atual. Não somos mais apenas professores. Somos publicitários e marketeiros. Precisamos saber vender nossa aula. Nessa hora sei que você está revirando os olhos e pensando que é o aluno que deve se interessar pelo conteúdo. O que não discordo totalmente, inclusive já repeti várias vezes em conselhos de classe e na própria sala de aula. Contudo, vale a reflexão: Essa abordagem autoritária tem funcionado? Por quanto tempo? Em quantas aulas somos desrespeitados novamente?

Veja que não estou desmerecendo qualquer prática pedagógica, apenas, indicando que você encontre a sua ou as que melhor funcionam com você. Não é porque fulano arranca elogios de todos que você precisa seguir como um manual o que fulano fala e faz em sala ou fora dela.

Em pedagogia da autonomia, pág. 58, Freire exemplifica: "Quando saio de casa para trabalhar com os alunos, não tenho dúvida nenhuma de que, inacabados e conscientes do inacabamento, abertos à procura, curiosos, "programados mas para aprender", exercitaremos tanto mais e melhor a nossa capacidade de aprender e de ensinar quanto mais sujeitos e não puros objetos do processo nos façamos".

Esse livro foi escrito em 1996, vamos adaptar a nossa realidade 27 anos depois. Paulo Freire ali demonstra o interesse de adultos analfabetos, que conscientes da sua condição de explorados, vêem na educação uma chance de mudar de vida. Observamos, nas salas de EJAI, conversas dispersas, resistência na execução de algumas atividades, espelhando o real motivo de estarem ali. Analfabetos não conseguem emprego! Mas ainda voltando às falas de Freire, cabe ao professor conduzir, orientar e inspirar seus alunos, pois “é na inconclusão do ser, que se sabe como tal, que se funda a educação como processo permanente. Mulheres e homens se tornaram educáveis na medida em que se reconheceram inacabados. Não foi a educação que fez mulheres e homens educáveis, mas a consciência de sua inconclusão é que gerou sua educabilidade.”

E OS PAIS, HEIN?!

Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária .LEI Nº 8.069, DE 13 DE JULHO DE 1990. - ECA (ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE)

O ano é 2022 e para alguns pais só é falta de respeito se o aluno “tascar” um tapa na sua cara.

A sala de aula, muitas vezes e independentemente do preparo do professor, tem se tornado um ambiente hostil. E, quando isso acontece, o ideal é chamar o responsável para que a parceria escola-família trabalhe em prol da melhor orientação do estudante.

O modelo atual, não está favorável a essa parceria. Vemos cada vez mais as escolas sendo usadas como depósitos de alunos e, a cada ciclo, mais "órfãos'' de pais vivos encontramos em nossas salas.

Zagury, em seu livro O professor refém, constata através de pesquisa que a família abriu mão de seu papel essencial de geradora da ética e de primeira agência socializadora das novas gerações.

O pesadelo do professor não é o aluno indisciplinado, mas o fadado momento de encontrar os pais. E como não espelhar automaticamente a imagem dos alunos quando conhecemos seus pais. E parece que, em boa parte das experiências, quanto mais indisciplinado é o estudante, mais arrogante é o pai/mãe. Coincidência?

Lembro da vez, que depois de meses tentando educar a turma inquieta do sétimo ano sobre como se comportar em sala de aula, explicando a importância do silêncio e atenção ao mesmo tempo em que explicava os assuntos e passava as orientações da atividade, tirei da sala o grupinho da bagunça e comuniquei à coordenação e direção que eles só entrariam na minha sala quando eu conversasse com os pais. Imagine aqui um cenário impossível de se concluir uma frase sequer.

Na semana seguinte, ao final da tarde, a gestora perguntou se eu poderia atender a ligação da mãe de fulano e prontamente respondi que a aguardava na escola porque a conversa deveria ser pessoalmente. Não sei onde a ofendi com essa atitude que ela chegou “armada” e não quis nem me ouvir. Proferiu ameaças e me acusou de ser mal educada por não tê-la atendido ao telefone. Tentei explicar os motivos e importância de conversarmos pessoalmente, mas ela replicou perguntando se eu já havia falado com os pais dos outros alunos ou só o filho dela que estava sendo perseguido. Concluiu questionando porque eu havia recolhido o celular do fulaninho e advertiu que caso se repetisse iria ao ministério público me denunciar para eu aprender qual deveria ser meu lugar.

Nessa hora eu já estava respirando bem profundamente para evitar falar bobagens e mesmo assim respondi que repetiria quantas vezes fosse necessário até o aluno entender a finalidade de estar ali em sala de aula. E, sendo ele filho dela, era com ela que eu teria que falar, bem como os outros eu falaria com os relativos responsáveis.

Ao se retirar, vendo que eu não aceitaria suas ameaças, ela foi se queixar com a equipe pedagógica que a acalmou e tranquilizou prometendo que não aconteceria mais. E a mim, foi solicitado a não incomodar mais a mãe e resolvesse essas questões internamente.

É vergonhoso, lamentável, repugnante, mas real. Bem real.

“As novas relações familiares e a falta de limites das crianças minaram a autoridade do professor ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, transferiram para a escola atribuições tradicionais da família. A indisciplina e a falta de motivação das crianças tornaram-se, em consequência, dois dos maiores problemas dos educadores. Nesse contexto, o professor se tornou uma espécie de refém do excesso de tarefas, da família, da sociedade e das decisões educacionais equivocadas. Ao mesmo tempo, segundo Zagury, é ele o verdadeiro herói brasileiro ― afinal, poucos profissionais se dedicariam tanto com tais condições de trabalho”.

A educação brasileira não vai mal por causa de Paulo Freire, como afirmam os conservadores que nunca leram uma única linha dos seus textos . Para ele, ensinar exige compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo. Há situações em que a conduta do professor precisa ser mais enérgica em sala para que a proposta da aula seja realizada. O aluno, sem entender seu papel ali, o enfrenta e desestrutura toda a dinâmica da aula. A educação vai mal, em consequência da incivilidade e da falta de responsabilidade pessoal e social dos pais, que sem discernir seus deveres essenciais na formação da criança/jovem, delegam seu papel de principal orientador para a escola. A transferência de responsabilidade e a falta de punição dos pais são os verdadeiros motivadores do retrocesso educacional.

A escola não é um universo separado da sociedade. É reflexo dela e para ela. Se a sociedade está doente e não respeita-se as hierarquias e processos individuais, não vai ser na bolha escolar que isso vai ocorrer. Marvel ainda não criou um herói professor da educação básica. A gente vê aqui ou ali, retratados em filmes, professores que venceram o sistema. Eles existem, mas estão cansados! Afinal, uma andorinha só não faz verão!

REFERÊNCIAS

Antunes, Celso. Professores e professauros: reflexões sobre a aula e práticas pedagógicas diversas/ Celso Antunes.-9ªed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2914.

Claxton, Guy. Ensinando os alunos a se ensinarem: o método do poder da aprendizagem/ Guy Claxton; prefácio de Carol S. Dweck; tradução de Daniela Barbosa Henrique.- Petrópolis, Rj: Vozes, 2019.

Freire, Paulo, 1991-1997. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa/Paulo Freire-69ª ed.-Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.

Freire, Paulo, 1921-1997. Pedagogia do Oprimido. Paulo Freire-78ª ed.-Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.

Zagury, Tania,1949- . O professor refém: para pais e professores entenderem porque fracassa a educação no Brasil/ Tania Zagury.- 7ª ed.- Rio de Janeiro: Record,2006. 

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