A GEOGRAFIA- ISSO SERVE, EM PRIMEIRO LUGAR, PARA FAZER A GUERRA
Siliane Nunes da Silva de França
Professora de Geografia formada pela Universidade Federal de Alagoas.
https://orcid.org/0009-0003-3275-3488
E mail: siliane.nunes@professor.educ.al.gov.br
O livro "A geografia, isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra", de Yves Lacoste, foi escrito em um momento de descredibilização da geografia como ciência humana no cenário acadêmico. Na época, a disciplina era vista apenas como uma ferramenta para demarcar territórios por meio de mapas. A partir dessa discussão, surgiu a necessidade de construir uma nova concepção da geografia, tanto no meio acadêmico quanto no ensino, que Lacoste chamou de "geografia dos professores".
Em sua obra de 1976, Lacoste manifesta seu espanto com o sentimento de inutilidade atribuído a essa "geografia dos professores" (p. 15). Ele observa que a disciplina é negligenciada, mesmo com a preocupação de denunciar alienações.
Segundo o autor, a geografia resumia a sua utilidade a fornecer informações para uma estrutura socialmente dominante que apenas enumerava elementos do conhecimento de forma isolada, como clima, relevo e vegetação, sem a devida conexão entre eles, o que a reduzia a um mero exercício de memorização. Por isso, Lacoste (1976, p. 21) sentiu a necessidade de escrever o livro para provocar a comunidade científica sobre os rumos da disciplina. Ele defendia que a geografia tinha muito a dizer sobre geopolítica, indo além dos conceitos de paisagem, lugar e território. Lacoste acreditava que a disciplina não poderia mais ser "maçante", pois "após alguns anos, os alunos não querem mais ouvir falar dessas aulas que enumeram, para cada região ou para cada país, o relevo- clima- vegetação
população- agricultura- cidades- indústrias" (p. 21).
Para defender a geopolítica, que foi discriminada por sua associação com o movimento nazista, Lacoste questionou se os críticos fariam o mesmo com a biologia, sob o pretexto de teóricos nazistas terem usado a linha de pesquisa das raças superiores. Assim, ele buscava evidenciar a fragilidade do argumento que pretendia desqualificar a geopolítica, destacando que o mau uso de uma disciplina não deveria ser motivo para seu total abandono. O autor enfatiza que a geografia é, primeiramente, um saber estratégico que serve para organizar territórios e controlarpessoas. É um poder, uma articulação de conhecimentos relativos ao espaço. Ele nota que as relações entre as estruturas de poder e as formas de organização do
espaço são, em grande parte, mascaradas para aqueles que não estão no poder.
A relevância da análise geopolítica defendida por Lacoste transcende o campo teórico e se manifesta de forma dramática em situações como a da Braskem em Maceió. Esse caso se tornou um exemplo contundente de como o poder financeiro e corporativo pode se sobrepor à moralidade e à soberania, atropelando a vida de mais de 40 mil famílias. O afundamento de bairros inteiros, provocado pela extração negligente de sal-gema, é a expressão de um "aménagement" (arranjo) do território que não apenas visa o lucro, mas também desorganiza o espaço em benefício do poder, uma lógica que Lacoste já denunciava como parte da função
estratégica da geografia (p. 30). As famílias, lesadas e de mãos atadas diante da força de uma grande corporação, veem suas vidas e memórias serem destruídas em um processo onde a balança do poder está claramente desequilibrada. Lacoste argumenta que a geografia, por ser um saber estratégico, é perigosa (p. 164) e que suas relações com o poder podem ser contraditórias e até antagônicas (p. 155). O geógrafo, apesar de muitas vezes ser um espectador impotente, é, querendo ou não, um agente a serviço do poder. O caso Braskem ilustra essa tensão, onde o conhecimento geológico e técnico foi utilizado para fins econômicos com consequências devastadoras. Nem mesmo as denúncias expostas no relatório da CPI Braskem foram suficientes para reverter a situação positivamente para as
famílias desabrigadas.
A análise crítica feita por geógrafos e a discussão levada para as salas de aula assumem, portanto, uma importância essencial. Lacoste (p. 153) enfatiza que não pode ser apenas a minoria no poder a entender como o território se transforma e como intervir nessas mudanças. É por meio de uma educação geográfica que o cidadão se capacita para compreender que sua "localidade" não é um compartimento isolado, mas faz parte de "conjuntos espaciais" que se relacionamem escalas global e nacional (p. 181-182). Somente com essa consciência e com a capacidade de interpretar as "novas formas" de dominação, é que a população pode aspirar a uma verdadeira soberania e se libertar das amarras impostas por aqueles que manipulam o território para seus próprios fins.
LACOSTE, Yves. A geografia, isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. Tradução de Maria Cecília França. 11. reimpr. Campinas: Papirus Editora, 2024. 240 p.
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